Viva a Trova!

O Segredo da Poesia para Crianças e as Quadrinhas Populares.

Assistindo à live “O segredo da canção e da poesia para criança”, você ficou conhecendo muita coisa sobre a trova, também chamada de quadra – um poema em poucas palavras, que extrai apenas a essência de uma imagem, de um sentimento ou de uma ideia, como o haikai japonês.

Aqui, nesse texto, vou trazer mais informações sobre os quatro livros que me ajudaram a conhecer melhor o maravilhoso universo das trovas.

Em primeiríssimo lugar, o livro “Poesia amorosa do povo português”, publicado em 1890, de autoria do pesquisador português Leite de Vasconcelos (1858 – 1941).  No final, o autor apresenta a sua “Coleção seleta de poesias de amor” – uma seleção de aproximadamente 250 trovas. Aqui está o link para você saborear as páginas desse estudo precioso e apaixonante:

Em 1883, o escritor brasileiro Sílvio Romero lançou “Cantos populares do Brasil”, uma recolha de centenas de poesias populares, dos mais variados formatos. A terceira parte do livro, “Versos gerais”, termina com a “Silva de quadrinhas” – uma seleção de aproximadamente 560 trovas. Aqui está o link dessa obra:

 

Em 1903, os escritores portugueses Alberto de Oliveira (1873 – 1940) e Agostinho de Campos (1870 – 1944) lançaram o belíssimo “Mil trovas portuguesas” – até o momento, não encontrei esse livro disponível em nenhum site.

Em resposta ao livro anterior, o escritor brasileiro Afrânio Peixoto lançou, em 1919, a coletânea “Mil trovas brasileiras” – com um ótimo prefácio. Aqui está o link para você mergulhar na poesia:

       

Atenção! Prepare-se! Só com esses três links, você poderá saborear mais de mil e oitocentas trovas!

A trova, ou quadra, tem vida própria como um poema de quatro versos. Saboreie, por exemplo, essas duas trovas magníficas do poeta português Antonio Correia de Oliveira (1878-1960):

 

“Sino coração, coração da aldeia;

Coração, sino da gente;

Um a sentir, quando bate;

Outro a bater, quando sente.”   

 

“Ó ondas do mar salgado,

Donde vos vem tanto sal?

Vem das lágrimas choradas

Nas praias de Portugal.”

 

Olavo Bilac e a Trova

 

As trovas também podem ser usadas na composição de um poema. Nesse caso, cada trova é uma estrofe – e as estrofes vão se encadeando na construção da poesia. Observe, por exemplo, o uso da trova no poema “A boneca”, de Olavo Bilac:

 

Deixando a bola e a peteca,

Com que inda há pouco brincavam,

Por causa de uma boneca,

Duas meninas brigavam.

 

Dizia a primeira : “É minha!”

— “É minha!” a outra gritava;

E  nenhuma se continha,

Nem a boneca largava.

 

Quem mais sofria (coitada!)

Era a boneca. Já tinha

Toda a roupa estraçalhada,

E amarrotada a carinha.

 

Tanto puxavam por ela,

Que a pobre rasgou-se ao meio,

Perdendo a estopa amarela

Que lhe formava o recheio.

 

E, ao fim de tanta fadiga,

Voltando a bola e a peteca,

Ambas, por causa da briga,

Ficaram sem a boneca ...

 

Esse poema faz parte de um livro belíssimo: “Poesias infantis”, de Olavo Bilac (1865 – 1918), lançado em 1904. E aí está o link para você ler e saborear esse livro do início ao fim - e fica também o desafio para você descobrir os poemas que se utilizam da estrutura da trova:

 

Para observar o uso da trova na construção de poemas, você pode escutar as belíssimas histórias da Coleção Disquinho, lançada, em 1965, pelo compositor Braguinha (João de Barro), com arranjos de Radamés Gnatalli. Foram lançados 89 títulos, mas deixo aqui apenas duas sugestões: “A formiguinha e a neve” e “Os quatro heróis”.  

  

As Melhores Quadrinhas

Para finalizar, segue uma pequenina seleção de trovas portuguesas e brasileiras...

 

Você de lá, eu de cá.

Bem no meio passa o rio.

Agora vai começar

nosso grande desafio.

 

O lírio para ser lírio

deve ser de Alexandria.

A mulher, pra ser mulher,

deve se chamar Maria.

 

Não há nome que eu mais goste,

como o nome de Maria.

Quem te deu tão lindo nome,

meu segredo já sabia...

 

Se o passarinho vendesse

as penas que Deus lhe deu,

eu também vendia as minhas,

pois ninguém tem mais que eu.

 

Não há flor como o suspiro,

na minha estimação.

Todas as flores se vendem,

só os suspiros se dão.

 

Tenho corrido mil terras.

Mil terras tenho corrido.

Mil cães me têm ladrado,

mas nenhum me tem mordido.

 

Navegando em alto mar,

vejo um barco de cortiça.

Se és casado, arreda, arreda,

se és solteiro, atiça, atiça.  

 

O coração e os olhos,

são dois amigos leais.

Quando o coração tem pena,

logo os olhos dão sinais.

 

Dá-me um beijo, dou-te dois.

Dou-te assim paga dobrada.

Agindo dessa maneira,

não fico devendo nada.

 

Quem quer bem, dorme na rua,

à porta do seu amor.

Faz das pedras, travesseiro.

Das estrelas, cobertor.

 

Ausência tem uma filha

que é chamada de... Saudade.

Eu sustento mãe e filha,

mas contra a minha vontade.

 

Neste lugar onde eu canto,

todos tiram-me o chapéu.

Cada repente que eu tiro,

corre uma estrela no céu.

 

Eu tenho um saco de versos

dependurado no oitão.

Se alguém duvidar de mim,

tiro do saco um refrão.

 

Quem canta seu mal espanta.

Quem chora seu mal aumenta.

Eu canto pra disfarçar

esse mal que me atormenta.

 

Quem corre nem sempre alcança,

nem vence por madrugar.

Quem quiser chegar a tempo,

ande sempre e devagar.

 

Tudo muda nesse mundo,

só meu mal não tem mudança.

O bem de ontem é saudade.

O bem de hoje é esperança.

 

As folhas da bananeira

mexem com o sopro do vento.

Estes teus olhos, menina,

mexem com o meu pensamento.

 

Coração de pedra dura

como pedra de amolar.

A pedra no fogo abranda,

você não quer abrandar.

 

Tenho meu relógio de ouro

com ponteiros de marfim.

O dia que não te vejo,

são cem anos para mim.

 

Boas leituras, declamações, cantorias e... Viva a trova!

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