Neste artigo vou explicar o conceito de Música e Movimento trabalhado na pedagogia musical de Carl Orff, também conhecido como método Orff Schulwerk – (palavra que significa trabalho escolar em alemão). Em seguida abordarei esta teoria por meio de um exemplo prático: vou revelar passo a passo o processo de composição da minha brincadeira musical Sambaê, mostrando a importância de cada elemento e a relação entre eles.

Recebo muitas mensagens perguntando sobre a canção Sambaê, onde encontrá-la e como fazer a brincadeira associada a esta música. Resolvi escrever este artigo para responder também a estas questões e revelar os segredos que estão por trás desta música. Se você é pai, professor ou se interessa pelo tema das brincadeiras e da criatividade como ferramenta de ensino, com certeza poderá aproveitar e adaptar estes elementos para criar o suas próprias atividades.

Por que Música e Movimento?

Carl Orff escreveu o seu material pedagógico em 1930 propondo uma solução e um novo olhar para um problema que muitos professores enfrentavam: Como ensinar música se o seu aprendizado depende exclusivamente da leitura de partitura.

 

O pedagogo observou que as crianças já dispunham, por natureza, das ferramentas necessárias para aprender e, mais ainda, para criar sua própria música. Foi quando Orff desenvolveu o conceito de música elemental, onde une a palavra, a música e o movimento no processo de aprendizagem.

“A Música Elemental nunca é somente música. Está vinculada ao movimento, à dança e a fala, é uma forma de música que implica a participação de cada um, não como ouvinte, mas como um co-intérprete.”

Elemental music is never just music. It is bound up with movement, dance and speech, and so it is a form of music in which one must participate, in which one is involved not as a listener but as a co-performer.”

A partir destas propostas o ensino de música para crianças passa a dialogar diretamente com o corpo, com o movimento, transformando em prática o aprendizado que antes era puramente teórico. Orff traz a brincadeira para o centro de seu método como elemento motivador.

Segundo Doug Goodkin, no livro “Play, Sing & Dance – An Introduction to Orff Schulwerk”, trazer a brincadeira para a sala de aula nos dias de hoje, não é apenas uma boa prática educacional, mas uma necessidade social.

A brincadeira traz, além da motivação e da prática, um elemento fundamental no processo de ensino-aprendizagem: a capacidade de “autocorreção”.

As crianças são capazes de identificar um problema no decorrer de uma atividade, não porque um adulto apontou, mas porque a própria brincadeira vai dizer.

É importante mencionar que Goodkin utiliza o termo Autocorreção ou autoeducação conforme tratou Maria Montessori no seu método pedagógico. Nesse sentido, o professor não precisa avisar a criança que a melodia não está de acordo com os passos, a própria brincadeira enviará esta mensagem de maneira clara.

A abordagem Orff explora a brincadeira em diferentes meios como: no corpo, na linguagem, nas danças folclóricas, na canção, no movimento, na encenação e  também através de um conjunto de instrumentos selecionados.

Se você se interessa por esta pedagogia e deseja conhecer um pouco mais da bibliografia especializada, assista este vídeo aqui:

Indicações Bibliográficas:

 

E aqui seguem alguns links de centros e associações Orff pelo mundo:

Associação Orff Brasil: http://www.abraorff.org.br

Associação Americana Orff http://aosa.org/

San Francisco Orff Scholl https://sforff.org/

Um Salto na História: A Música e o Movimento da Antiguidade até os Dias de Hoje.

E se eu te contasse agora que, na origem, os conceitos de Música e o Movimento não estavam separados. Isso mesmo, a relação entre estes dois conceitos já estava presente na Antiguidade Clássica onde o termo técnico Musiké (Arte das Musas) designava o âmbito das três artes do movimento: a palavra, o canto e a dança.

Depois da Antiguidade, veio a Idade Média, que continuava produzindo arte sem uma diferenciação clara entre estas categorias. A palavra literária era transmitida oralmente, jograis eram responsáveis por tocar, encenar, dançar e cantar a poesia dos trovadores.

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Com o avanço das técnicas de escrita musical, vocal, de encenação teatral e da dança, estes limites foram se intensificando e aquilo que estava unido passa a se separar cada vez mais.

Porém, à margem desta diferenciação, a tradição popular e folclórica de cada povo nunca separou a música do movimento. Estes dois elementos nascem unidos como uma forma natural de sua expressão artística.

Podemos citar, por exemplo, a rica tradição popular da Bulgária, Turquia, Rússia, Itália, Espanha, Grécia, Irlanda, Alemanha e tantas outras…  

Mestres Brincantes da Cultura Popular Brasileira

A minha formação sempre esteve ligada com a cultura popular brasileira e, ao participar de diferentes tradições e manifestações, pude ver que música e movimento realmente eram uma coisa só. Um mestre brincante expressa exatamente isso. Ele brinca em todas as artes que compõem a festa popular. O mestre brincante é capaz de dançar um trupé de cavalo marinho, em seguida tocar pandeiro no banco dos músicos para e depois se levantar e cantar as toadas para iniciar o baile final. 

Se tem canção e instrumento é porque tem gente dançando! E esta é a filosofia Brincante: ser capaz de passar por todas as artes que integram a festa folclórica como se esta tradição fosse uma grande brincadeira.

Os mestres de maracatu do interior de Pernambuco não tocam sem dançar – isso é natural. Estes dois elementos estão entrelaçados na cultura popular, como já estavam antigamente na origem grega da palavra música…

Foto: Jan Ribeiro/ Pref. Olinda

Pedagogia Musical Orff na Prática

Quando conheci a pedagogia musical Orff e me tornei professor, consegui unir a tradição popular brasileira com a teoria musical e o universo das brincadeiras.

Vou te mostrar como isso funciona por meio de um brincadeira musical que compus para o meu curso online Baile do Colherim. A música acompanha uma série de 4 atividades, com adaptações para crianças de berçário, educação infantil, fundamental, adolescentes e adultos.

Cada elemento da canção foi criado em conexão direta com os movimentos corporais, o que resultou numa brincadeira muito eficaz. Conectei ainda ao processo habilidades importantes para o desenvolvimento da criança: equilíbrio, coordenação motora, escuta ativa, percepção sensorial e dinâmica de grupo. Elementos que vou explicar com mais detalhes aqui embaixo. Por meio desta ligação entre música e movimento, o Sambaê consegue favorecer outros aspectos cognitivos das crianças como, por exemplo, a capacidade de concentração.

Os segredos da música Sambaê 

*Agora vamos observar na prática esta concepção teórica, conhecendo o processo de criação de da brincadeira musical. Esta composição conta a história da formação do samba brasileiro, vivenciando as técnicas fundamentais do seus instrumentos tradicionais, um batuque que tem o poder de se mesclar com músicas de todo o mundo.

O primeiro segredo é o diálogo com o samba e a tradição popular brasileira. A brincadeira apresenta como pano de fundo uma das manifestações populares mais importantes da cultura brasileira e todas as suas expressões: o samba de roda que nos conecta com as raízes africanas, o samba carioca, o samba-canção, o samba enredo e a tradição carnavalesca…

O segundo segredo é a expressividade do Movimento. Para trabalhar este elemento, proponho um alongamento onde preparamos o corpo e a mente para a nova atividade. No alongamento, conseguimos sincronizar a respiração com os movimentos, despertando todos os músculos do nosso corpo e nos concentrando para a atividade que está por vir.

O terceiro segredo é trazer para a melodia a riqueza de técnicas musicais da cultura brasileira:

– Atabaque

Eu ensino o ritmo com percussão corporal juntamente com fundamentos da dança: um diálogo com a origem do samba. A brincadeira apresenta na primeira parte da música o requebrado do “samba de roda”, uma das origens deste ritmo, assim como a “Chula Baiana” e o “Samba duro”. Aprendemos a essência desta história cantando e dançando com a ginga do atabaque, instrumento de grande importância para a nossa tradição. Com uma técnica apurada, desenvolvemos o nosso corpo percussivo e, ao mesmo tempo, nos conectamos com as raízes africanas.

O som do atabaque canta melodias e com elas o professor consegue fazer com que todos os alunos memorizem o ritmo e se divirtam com uma simples brincadeira.

O atabaque está presente também no samba de roda, na capoeira, nas batucadas de carnaval  (em que se transformando em timbal) e é o principal instrumento para chamar os toques de Orixás.

– Desenho do Tamborim

Ele tem uma técnica toda especial apenas encontrada no Brasil.

Quando eu comecei a estudar os desenhos do tamborim, ele começou a cantar melodias para mim. **Estas melodias se transformam na conversa percussiva das pernas e do pé, preparando o nosso corpo para o grande momento…

-Breque do samba

Breque, parada ou convenção é o grande momento do samba. São estas paradinhas que conferem emoção à batucada. Ela prepara o ouvinte para a novidade que virá, chama a atenção para o refrão que vai ser cantado e também é capaz de encerrar a música com um “gran finale”.  O breque percussivo da uma carga de energia para o corpo do bailarino, sendo capaz de dançar horas e horas com um sorriso no rosto.

Eu coloquei este elemento na última parte da música “Sambaê” para que a batucada ganhe uma nova energia para recomeçar a brincadeira, mas agora com novos desafios.

– A Melodia

Que entrelaça a percussão e a dança.

É muito importante saber a relação do arranjo com a canção e a batucada de samba.

É preciso uma escuta ativa para diferenciar todos estes elementos.

O quarto segredo é a Dança. São os passos da dança que vão ensinar as técnicas percussivas. O ritmo se transforma em melodia que ensina o nosso corpo a se mexer. Por exemplo: o “tum tum” (som grave do surdo do samba) cantado com diferentes notas musicais, está relacionado com a lateralidade e a transferência do peso do nosso corpo para as nossas pernas.

O quinto segredo é a voz. Cantar ajuda a desvendar os segredos do samba. A prosódia percussiva um verdadeiro trava língua desvendado pelo sacolejo da percussão.  Cada nota da melodia tem um som e um batuque. Cada nota da melodia tem um movimento e uma direção.

O sexto segredo é a Criação. Minha filosofia de ensino se baseia na arte de sermos criadores das nossas próprias brincadeiras. Quando uma pessoa faz uma adaptação, uma pequena criação na maneira de brincar, esta composição passa a ser um pouco dela também. E assim começa um relacionamento de amor com a música em movimento. Todo ser humano tem um poder de criação e de tentar novos superar desafios.

Com o “Sambaê” trabalhamos a musicalidade no seu corpo, agora ela vive dentro de você e você pode transmiti-la para diversos instrumentos e até mesmo objetos do dia a dia.

Podemos transformar, por exemplo, o pandeiro em uma caixinha de fósforos. Este processo vai permitir transportar o conhecimento  do samba para outro material. Recicle o seu olhar e desfrute este samba no seu dia a dia de diferentes maneiras, crie e recrie com amigos e familiares. Você verá que esta brincadeira não acaba nunca.

Com estes 6 segredos a brincadeira Sambaê aborda os principais elementos para o desenvolvimento humano: cultural, social, motor, sensorial, cognitivo, emocional e criativo.

APLICAÇÕES DA MÚSICA COM AS CRIANÇAS:

Se você ficou curioso e quer saber um pouquinho mais, veja algumas aplicações dos meus alunos no canal do Youtube:

Como conseguir esta brincadeira:

Tanto a canção como as brincadeiras que a acompanham estão disponíveis somente no meu curso online Baile do Colherim. Para cada brincadeira eu ensino um percurso de aprendizado dividido em 4 etapas: demonstração, passo a passo, forma da música e prática corporal e musical.

Bons estudos e boa brincadeira!


Estêvão Marques
Estêvão Marques

Estêvão Marques é músico, professor, pesquisador e autor de diversos livros: Coleção Histórias que Cantam, Brasil for Children, Brincadeiras Musicais do Palavra Cantada, Colherim... Viaja pelos quatro cantos do mundo ensinando suas mirabolâncias: Finlândia, Taiwan, Colômbia, Noruega, Argentina, Turquia... É professor no The San Francisco Orff School nos Estados Unidos e já está na 5ª edição do seu Curso Online de Brincadeiras Musicais: Baile do Colherim.

    1 Response to "Carl Orff, a Música e o Movimento na Brincadeira Sambaê"

    • Brigida Beatris Barsanti Placco

      Adorei! Gostaria de participar do curso ¨Baile do colherim¨! como faço?Obrigada!

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